Aos treze anos, o jovenzinho está em plena transição da infância para a adolescência, encontra-se em fase de crescimento, se desenvolve sexualmente e inicia suas funções reprodutivas. Com mais alguns anos, ingressa na idade adulta, com todas as consequências da pessoa em sua trajetória para o envelhecimento.
Casei relativamente cedo; aos vinte e um anos. Constitui uma adorável família, representada pela esposa, a quem amo com todas as veras do meu coração, e por três filhos, igualmente queridos; o primeiro, do sexo masculino, recentemente completou quarenta e seis primaveras; as meninas já são detentoras de quatro décadas cada uma, afora o excedente anual dos dias que elas omitem, com é comum às mulheres. A idade do belo sexo é expressa com inexatidão matemática. Assim, mascaram o tempo real de existência vivida nesta terra de meu Deus.
Não pretendo, aqui, tratar da minha vida particular nem expor a esposa e “as crianças” a vexames públicos. Desejo falar sobre pessoas que já “dobraram o Cabo da Boa Esperança”, ingressando na chamada “terceira idade”, categoria em que se encontram os idosos depois de ultrapassados os cinquenta anos. A primeira idade dá-se aos vinte e cinco, a segunda, aos cinquenta e a terceira, depois disso aí.
Por ser velho, idoso ou por ter ingressado na terceira idade há algum tempo, sinto-me “a cavalheiro” para falar sobre esse tema. Pois, bem: Lamentavelmente, 80% dos idosos sofrem de preconceito contra a velhice no Brasil. 35% dos velhinhos declaram ter sofrido algum tipo de maus tratos, seja por ofensas pessoais, tratamento irônico, humilhação decorrente da idade avançada em dias, falta de emprego, ausência de medicamentos, apropriação indevida de seus bens, e até lesões corporais, esta última, um ato vil, de extrema covardia e desprezo humanitário.
Vinte e seis por cento das mulheres idosas jamais foram submetidas a exames ginecológicos, enquanto 42% dos homens da terceira idade nunca visitaram um urologista para avaliarem a próstata. A estatística demonstra dois aspectos a lamentar: Primeiro, a falta de assistência à saúde dessas pessoas, por parte do governo, pois é sabido que o pobre depende exclusivamente da rede hospitalar pública para cuidar dos seus males físicos; segundo, o desconhecimento sobre as doenças orgânicas que os acometem; a ignorância que os assola está refletida no analfabetismo de 49% dos idosos, dos quais, 23% declaram não saber ler e escrever o próprio nome.
Seis por cento dos velhinhos no Brasil não têm filhos. Isso poderá ser entendido como fator de ausência afetiva; sem filhos para cuidar, ficam à mercê de pessoas estranhas de quem passam a depender, nem sempre com o devido respeito.
Outrossim, os mais velhos poderão ser alvo de atos discriminatórios e de conflitos entre a geração mais nova, que se julga prejudicada por contribuir pesadamente para a aposentadoria do cidadão improdutivo, responsável por gastos cada vez maiores, decorrentes da utilização de remédios e de cuidados médicos constantes.
Noventa e dois por cento dos velhinhos têm alguma aposentadoria.
Quanto à assistência médica...
As doenças, as dificuldades motoras, a dependência física, tudo confirma que nós, homens e mulheres, chegamos à velhice. Alguns, privilegiados pela natureza ou por terem levado a saúde a sério, alimentando-se corretamente, exercitando-se com periodicidade recomendável, chegam a esse estágio da vida em melhores condições que outros.
Há, infelizmente, os que herdaram problemas de seus ancestrais, seguiram-lhes os caminhos tortuosos das doenças genéticas, e os que fizeram de seus dias uma libertinagem sem fim, transformando-os num jogo que lhes levaram à derrota; ou seja, a uma existência sofrida e dependente.
Mas a vida é bela! Mesmo com os sintomas acima mencionados, 48% dos idosos se declaram felizes e satisfeitos assim como vivem; os caminhos percorridos, as vitórias sofridas, as derrotas transformadas em aprendizagem marcante, a família constituída com amor…
Eu, particularmente, agradeço a Deus os dias que me restarão sob Seu comando, Sua proteção, Seu beneplácito.
Aqui estou Senhor, agradecido por tudo que me concedeste nesta vida: a juventude; o amor à estimada consorte, aos filhos, netos, genros e nora; e aos amigos queridos.
Agradeço-Te, também, a velhice concedida, que desfruto desafiando o tempo.
(*) os percentuais mencionados foram obtidos em pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abrano e o SESC
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Brasil que te quero próspero (crônica)
Aos sessenta e oito anos, próximo de fazer sessenta e nove – não confundir com a expressão pejorativa tão em voga hoje em dia –, fui acometido de certa crise nostálgica. Minha repentina tristeza decorreu da falta de providências e de efetividade dos governantes, sobre aspecto econômico de grande significação para o Brasil: as ferrovias.
Para um país que deseja tornar-se potência econômica, esse fator de infraestrutura é importantíssimo. Deve ser buscado obstinadamente, para que a circulação da riqueza não encontre empecilho na morosidade.
O transporte de bens e de passageiros por via ferroviária reduz o trânsito de veículos automotores nas estradas, propicia economia de manutenção do asfalto aplicado desonestamente, e minimiza os acidentes com vítimas humanas. Esse, o principal motivo.
O volume de produtos transportados ultrapassa os limites de análise econômica pertinente, o que não está sendo cogitado nesta oportunidade.
O ideal seria que as ações visando à implantação do sistema ferroviário não demorassem muito, pois brasileiros como eu, no ocaso da vida, talvez não alcancem a prosperidade trazida por esse antigo meio de transporte, hoje modernizado, eficiente e ágil. Essa não é a principal via do desenvolvimento econômico, mas, certamente, uma delas, aqui simplesmente tratada por ter sido escolhida como tema desta despretensiosa crônica.
Quem sabe, depois, falarei de outro assunto, tão ou mais importante.
Prossigo sem digressões, rumo ao corolário da ideia inicial.
A partir de 1852, as estradas de ferro brasileiras foram implementadas com visão futurista e expansionista, capitaneadas por Irineu Evangelista de Sousa, empresário que viajou à Inglaterra para conhecer “in loco” a pujança da economia britânica, responsável pela Revolução Industrial.
Irineu voltou ao Brasil convencido de que o caminho a percorrer por um país como o nosso, essencialmente agrícola, à época, seria o da industrialização. Ele próprio tornou-se industrial. Posteriormente, foi contratado pela província do Rio de Janeiro, desejosa de possuir uma ferrovia unindo a praia da Estrela, na Baia da Guanabara, à Serra de Petrópolis.
A Baronesa, locomotiva fabricada pela Manchester, da Inglaterra, e assim batizada para homenagear a mulher de Irineu Evangelista, fez sua primeira viagem em 30 de abril de 1854, partindo da praia da Estrela para Fragoso, um trecho de 14,5 quilômetros. A bordo estavam o imperador D. Pedro II e o industrial Irineu Evangelista de Souza, agraciado, na oportunidade, com o título honorífico de Barão de Mauá, concedido por Sua Alteza Real.
Honra outorgada por méritos inquestionáveis.
Trago à lume a questão de nossas ferrovias, por terem sido vergonhosa e criminosamente desmanteladas e esquecidas por sucessivos governos a partir dos anos sessenta. Alguns foram responsáveis pelo desmonte irresponsável e interesseiro, enquanto outros não se dispuseram a ressuscitá-las ou a revigorá-las, salvando-lhe o patrimônio físico – trilhos, máquinas e edificações – que aos poucos foram consumidos pela ferrugem e a depredação decorrente do abandono a que foram submetidas. Poucas ferrovias escaparam desse destino mal-são, patrocinado pelas autoridades encarregadas de zelar por sua permanência econômica. E histórica.
Em 1889, o Brasil já dispunha de mais de dez mil quilômetros de ferrovias, e entre 1911 e 1916 foram construídos cinco mil quilômetros de linhas férreas. Os números evidenciam um crescimento lento, sabendo-se que hoje dispomos apenas de 29.706 quilômetros de trilhos, embora tenhamos chegado a 34.207 quilômetros. A diferença perdeu-se na ineficiência e no desinteresse do Estado. A propósito, tal falta de empenho teria sido motivada pelo apego escuso das autoridades brasileiras aos ganhos fáceis, e velozes em ajudar a indústria automobilística a pilotar seus veículos recheados de dinheiro.
Era o propinoduto operando em alta velocidade.
A rede férrea dos Estados Unidos, a mais extensa do mundo, tem 226.612 quilômetros. A Europa está revolucionando os seus trilhos com alianças entre os países da comunidade. E nós, com os nossos míseros 29.706 quilômetros de linhas mal conservadas e desassistidas quanto a adequado apoio operacional e logístico, ficamos na rabeira, próximo de países africanos.
As autoridades tupiniquins estariam propensas a aumentar a nossa malha ferroviária. O presidente da República disse, em discurso eleitoreiro, que até 2010 construiria sete mil quilômetros de linhas férreas. O ruim disso tudo, é que o presidente fala demais; chega até mesmo a contar com o ovo no c... da galinha; costuma apresentar seus projetos como realizações efetivas, ou seja, inaugura-os antes mesmo de elaborados.
O que fazer?
É o Brasil, subindo a ladeira.
Cansado.
Os trilhos de nossa economia poderiam estar mais azeitados se o trem que conduz a corrupção desmedida, pilotado por maus e desonestos maquinistas, tivesse freio.
Você acredita em mudanças?
Nem eu!
Para um país que deseja tornar-se potência econômica, esse fator de infraestrutura é importantíssimo. Deve ser buscado obstinadamente, para que a circulação da riqueza não encontre empecilho na morosidade.
O transporte de bens e de passageiros por via ferroviária reduz o trânsito de veículos automotores nas estradas, propicia economia de manutenção do asfalto aplicado desonestamente, e minimiza os acidentes com vítimas humanas. Esse, o principal motivo.
O volume de produtos transportados ultrapassa os limites de análise econômica pertinente, o que não está sendo cogitado nesta oportunidade.
O ideal seria que as ações visando à implantação do sistema ferroviário não demorassem muito, pois brasileiros como eu, no ocaso da vida, talvez não alcancem a prosperidade trazida por esse antigo meio de transporte, hoje modernizado, eficiente e ágil. Essa não é a principal via do desenvolvimento econômico, mas, certamente, uma delas, aqui simplesmente tratada por ter sido escolhida como tema desta despretensiosa crônica.
Quem sabe, depois, falarei de outro assunto, tão ou mais importante.
Prossigo sem digressões, rumo ao corolário da ideia inicial.
A partir de 1852, as estradas de ferro brasileiras foram implementadas com visão futurista e expansionista, capitaneadas por Irineu Evangelista de Sousa, empresário que viajou à Inglaterra para conhecer “in loco” a pujança da economia britânica, responsável pela Revolução Industrial.
Irineu voltou ao Brasil convencido de que o caminho a percorrer por um país como o nosso, essencialmente agrícola, à época, seria o da industrialização. Ele próprio tornou-se industrial. Posteriormente, foi contratado pela província do Rio de Janeiro, desejosa de possuir uma ferrovia unindo a praia da Estrela, na Baia da Guanabara, à Serra de Petrópolis.
A Baronesa, locomotiva fabricada pela Manchester, da Inglaterra, e assim batizada para homenagear a mulher de Irineu Evangelista, fez sua primeira viagem em 30 de abril de 1854, partindo da praia da Estrela para Fragoso, um trecho de 14,5 quilômetros. A bordo estavam o imperador D. Pedro II e o industrial Irineu Evangelista de Souza, agraciado, na oportunidade, com o título honorífico de Barão de Mauá, concedido por Sua Alteza Real.
Honra outorgada por méritos inquestionáveis.
Trago à lume a questão de nossas ferrovias, por terem sido vergonhosa e criminosamente desmanteladas e esquecidas por sucessivos governos a partir dos anos sessenta. Alguns foram responsáveis pelo desmonte irresponsável e interesseiro, enquanto outros não se dispuseram a ressuscitá-las ou a revigorá-las, salvando-lhe o patrimônio físico – trilhos, máquinas e edificações – que aos poucos foram consumidos pela ferrugem e a depredação decorrente do abandono a que foram submetidas. Poucas ferrovias escaparam desse destino mal-são, patrocinado pelas autoridades encarregadas de zelar por sua permanência econômica. E histórica.
Em 1889, o Brasil já dispunha de mais de dez mil quilômetros de ferrovias, e entre 1911 e 1916 foram construídos cinco mil quilômetros de linhas férreas. Os números evidenciam um crescimento lento, sabendo-se que hoje dispomos apenas de 29.706 quilômetros de trilhos, embora tenhamos chegado a 34.207 quilômetros. A diferença perdeu-se na ineficiência e no desinteresse do Estado. A propósito, tal falta de empenho teria sido motivada pelo apego escuso das autoridades brasileiras aos ganhos fáceis, e velozes em ajudar a indústria automobilística a pilotar seus veículos recheados de dinheiro.
Era o propinoduto operando em alta velocidade.
A rede férrea dos Estados Unidos, a mais extensa do mundo, tem 226.612 quilômetros. A Europa está revolucionando os seus trilhos com alianças entre os países da comunidade. E nós, com os nossos míseros 29.706 quilômetros de linhas mal conservadas e desassistidas quanto a adequado apoio operacional e logístico, ficamos na rabeira, próximo de países africanos.
As autoridades tupiniquins estariam propensas a aumentar a nossa malha ferroviária. O presidente da República disse, em discurso eleitoreiro, que até 2010 construiria sete mil quilômetros de linhas férreas. O ruim disso tudo, é que o presidente fala demais; chega até mesmo a contar com o ovo no c... da galinha; costuma apresentar seus projetos como realizações efetivas, ou seja, inaugura-os antes mesmo de elaborados.
O que fazer?
É o Brasil, subindo a ladeira.
Cansado.
Os trilhos de nossa economia poderiam estar mais azeitados se o trem que conduz a corrupção desmedida, pilotado por maus e desonestos maquinistas, tivesse freio.
Você acredita em mudanças?
Nem eu!
domingo, 8 de novembro de 2009
Força-tarefa (crônica)
A coisa está ficando preta. O bicho vai pegar, se não forem tomadas urgentes providências para inibir a ação de bandidos, tanto dos que praticam crimes comuns quanto dos que assaltam o Erário.
Já é tempo de as autoridades, pelo poder que lhes compete, coibir os abusos de programas recheados de erotismo apelativo, de alta sensualidade, indecorosos e pornográficos, exibidos nas redes de televisão.
Em nome da liberdade de expressão e contra a prévia censura, falsos intelectuais e conhecidos exibicionistas defendem o contrário.
É preciso dar um basta!
A cada dia, os jornais noticiam casos de violência que já fazem parte do nosso cotidiano. São sequestros, assaltos, roubos, furtos, estupros e muitas outras selvagerias.
As televisões mostram cenas de guerra, troca de tiros entre policiais e bandidos à luz do dia, como se estivéssemos em uma guerra declarada. Os noticiários também divulgam inúmeros casos de corrupção, de desvio de verbas públicas e da utilização da máquina governamental a serviço de escusos interesses políticos e eleitoreiros.
Os programas de entretenimentos televisivos extrapolam os limites da moral e dos bons costumes. Divulgam cenas deprimentes em seus realities shows, como Casa dos Artistas e Big Brother Brasil, o primeiro, do SBT e o último, da Rede Globo. Seus apresentadores usam palavras chulas, inoportunas e até fazem gestos e exibem imagens e objetos de teores eróticos e pornográficos.
As telenovelas parecem concorrer com filmes do mais baixo nível cultural e moral. Cenas de sexo nas novelas das dezenove horas são comuns e desafiam a curiosidade das crianças que, por essas razões, não são mais tão inocentes quanto deveriam e desejariam os pais.
É preciso dar um basta!
Urgentemente!
A sociedade está em decadência. Cidades inteiras, grandes metrópoles, principalmente, estão sob o domínio do crime organizado. Em alguns estados, os bandidos já chegaram ao poder elegendo-se para cargos legislativos; eles agora elaboram normas que devemos cumprir ou fazem “vista grossa” para o que deixamos de fazer, sobretudo se for de índole criminosa.
Chegamos ao ponto, aliás, muito oportunamente, de constituir Forças-Tarefas para combater o mal que cresce assustadoramente, pois as polícias locais não dão conta do recado.
Força-tarefa é um grupo de unidades operativas, de diferentes especialidades, constituída temporariamente sob comando único, para realizar uma tarefa específica, com certa independência de procedimentos e ações. Poderá ser constituída por policiais civis e militares, procuradores federais e desembargadores, juízes de diversas instâncias e até pelas forças armadas.
É preciso dar um basta!
Com urgência.
Muitas outras Forças-Tarefa deveriam ser formadas para apurar delitos de toda ordem: dos crimes comuns contra as pessoas aos desvios de verbas públicas. Também serviriam para melhorar os sistemas de saúde e educacional do país, o funcionamento das repartições federais, estaduais e municipais e, quem sabe, dar um basta à licenciosidade de nossas emissoras de televisão.
Lamércio Maciel Braga
Já é tempo de as autoridades, pelo poder que lhes compete, coibir os abusos de programas recheados de erotismo apelativo, de alta sensualidade, indecorosos e pornográficos, exibidos nas redes de televisão.
Em nome da liberdade de expressão e contra a prévia censura, falsos intelectuais e conhecidos exibicionistas defendem o contrário.
É preciso dar um basta!
A cada dia, os jornais noticiam casos de violência que já fazem parte do nosso cotidiano. São sequestros, assaltos, roubos, furtos, estupros e muitas outras selvagerias.
As televisões mostram cenas de guerra, troca de tiros entre policiais e bandidos à luz do dia, como se estivéssemos em uma guerra declarada. Os noticiários também divulgam inúmeros casos de corrupção, de desvio de verbas públicas e da utilização da máquina governamental a serviço de escusos interesses políticos e eleitoreiros.
Os programas de entretenimentos televisivos extrapolam os limites da moral e dos bons costumes. Divulgam cenas deprimentes em seus realities shows, como Casa dos Artistas e Big Brother Brasil, o primeiro, do SBT e o último, da Rede Globo. Seus apresentadores usam palavras chulas, inoportunas e até fazem gestos e exibem imagens e objetos de teores eróticos e pornográficos.
As telenovelas parecem concorrer com filmes do mais baixo nível cultural e moral. Cenas de sexo nas novelas das dezenove horas são comuns e desafiam a curiosidade das crianças que, por essas razões, não são mais tão inocentes quanto deveriam e desejariam os pais.
É preciso dar um basta!
Urgentemente!
A sociedade está em decadência. Cidades inteiras, grandes metrópoles, principalmente, estão sob o domínio do crime organizado. Em alguns estados, os bandidos já chegaram ao poder elegendo-se para cargos legislativos; eles agora elaboram normas que devemos cumprir ou fazem “vista grossa” para o que deixamos de fazer, sobretudo se for de índole criminosa.
Chegamos ao ponto, aliás, muito oportunamente, de constituir Forças-Tarefas para combater o mal que cresce assustadoramente, pois as polícias locais não dão conta do recado.
Força-tarefa é um grupo de unidades operativas, de diferentes especialidades, constituída temporariamente sob comando único, para realizar uma tarefa específica, com certa independência de procedimentos e ações. Poderá ser constituída por policiais civis e militares, procuradores federais e desembargadores, juízes de diversas instâncias e até pelas forças armadas.
É preciso dar um basta!
Com urgência.
Muitas outras Forças-Tarefa deveriam ser formadas para apurar delitos de toda ordem: dos crimes comuns contra as pessoas aos desvios de verbas públicas. Também serviriam para melhorar os sistemas de saúde e educacional do país, o funcionamento das repartições federais, estaduais e municipais e, quem sabe, dar um basta à licenciosidade de nossas emissoras de televisão.
Lamércio Maciel Braga
Economizar é preciso (crônica)
O desperdício é sempre condenável. A gastança desenfreada, também. Desde que não acarretem prejuízos a pessoas ou a projetos em execução, os gastos poderiam ser adiados para oportunidades vindouras e de recursos mais abundantes.
Economizar é próprio de pessoas inteligentes, esclarecidas, conscientes, responsáveis, preocupadas com o futuro e desejosas em progredir. É também característica de quem se preocupa com o bem estar de outros indivíduos e com a estabilidade material de negócios, de empresas ou de entidades públicas.
Economizar é preciso. Deve ser ensinado às crianças pelos pais, no lar, e pelos professores, na escola, enquanto estão na fase de desenvolvimento. O exemplo de pais e professores estimula o aprendizado. Economizar é cultura e, portanto, deve ser passada de pai para filho. A atitude de economizar deve ser praticada diariamente, com o propósito de se gastar apenas o que deve ser gasto e não o que se pode gastar.
Em qualquer sociedade, economizar é prática salutar. O povo japonês é tido como poupador contumaz. O americano do Norte aplica suas sobras financeiras no mercado de capitais. Outros povos também poupam. Até certos brasileiros, quando lhes é possível, entesouram parte do pouco que recebem.
Se a população separasse uma parcela do que gasta com a cachaça, a cervejinha consumida nos finais de tarde, as inúmeras loterias federais e estaduais, o jogo do bicho e com as máquinas “caça-níqueis”, espalhadas pelos recantos mais remotos, a poupança nacional seria bem mais representativa.
A redução de gastos desnecessários ou excessivos aumentaria a poupança nacional e financiaria investimentos do governo em projetos de combate à miséria, construção de casas populares, criação de pequenos empreendimentos; e elevaria, por conseqüência, os níveis de renda e de emprego da população.
Economizar é preciso, também em relação aos desembolsos efetuados em todos os níveis da administração pública – federal, estadual e municipal – com a propaganda de realizações exageradamente divulgadas e até falsamente comunicadas ao público.
A propaganda institucional deveria ser permitida apenas para o governo orientar o cidadão quanto ao exercício da cidadania; informá-lo na busca de emprego e de treinamentos profissionalizantes; ensiná-lo os princípios de higiene, asseio e convivência social; proporcionar-lhe os meios para que tenha acesso à escola e à saúde; e alertá-lo sobre doenças, seus males e tratamentos disponíveis.
A redução dos altos custos dessa desregrada propaganda seria revertida em benefício da comunidade; a população teria mais escolas, hospitais, segurança pública eficiente, e o aposentado uma remuneração mais justa. O Estado reduziria seu enorme déficit social. E o contribuinte não veria o produto de seus impostos escoar pelas mãos dos larápios que fazem a propaganda oficial cara, destinada a enaltecer o nome de pessoas incapazes e corruptas.
Economizar é próprio de pessoas inteligentes, esclarecidas, conscientes, responsáveis, preocupadas com o futuro e desejosas em progredir. É também característica de quem se preocupa com o bem estar de outros indivíduos e com a estabilidade material de negócios, de empresas ou de entidades públicas.
Economizar é preciso. Deve ser ensinado às crianças pelos pais, no lar, e pelos professores, na escola, enquanto estão na fase de desenvolvimento. O exemplo de pais e professores estimula o aprendizado. Economizar é cultura e, portanto, deve ser passada de pai para filho. A atitude de economizar deve ser praticada diariamente, com o propósito de se gastar apenas o que deve ser gasto e não o que se pode gastar.
Em qualquer sociedade, economizar é prática salutar. O povo japonês é tido como poupador contumaz. O americano do Norte aplica suas sobras financeiras no mercado de capitais. Outros povos também poupam. Até certos brasileiros, quando lhes é possível, entesouram parte do pouco que recebem.
Se a população separasse uma parcela do que gasta com a cachaça, a cervejinha consumida nos finais de tarde, as inúmeras loterias federais e estaduais, o jogo do bicho e com as máquinas “caça-níqueis”, espalhadas pelos recantos mais remotos, a poupança nacional seria bem mais representativa.
A redução de gastos desnecessários ou excessivos aumentaria a poupança nacional e financiaria investimentos do governo em projetos de combate à miséria, construção de casas populares, criação de pequenos empreendimentos; e elevaria, por conseqüência, os níveis de renda e de emprego da população.
Economizar é preciso, também em relação aos desembolsos efetuados em todos os níveis da administração pública – federal, estadual e municipal – com a propaganda de realizações exageradamente divulgadas e até falsamente comunicadas ao público.
A propaganda institucional deveria ser permitida apenas para o governo orientar o cidadão quanto ao exercício da cidadania; informá-lo na busca de emprego e de treinamentos profissionalizantes; ensiná-lo os princípios de higiene, asseio e convivência social; proporcionar-lhe os meios para que tenha acesso à escola e à saúde; e alertá-lo sobre doenças, seus males e tratamentos disponíveis.
A redução dos altos custos dessa desregrada propaganda seria revertida em benefício da comunidade; a população teria mais escolas, hospitais, segurança pública eficiente, e o aposentado uma remuneração mais justa. O Estado reduziria seu enorme déficit social. E o contribuinte não veria o produto de seus impostos escoar pelas mãos dos larápios que fazem a propaganda oficial cara, destinada a enaltecer o nome de pessoas incapazes e corruptas.
A prata da casa (crônica)
Não será por saudosismo, muito menos por esperança frustrada ou por revanchismo, que venho ao meu reduzido número de leitores, nesta oportunidade, discorrer sobre este assunto.
Situando-me a partir da segunda metade dos anos sessenta, na região Nordeste, lembro-me de estradas de terra esburacadas, lamacentas, de tráfego difícil e penoso. Lamacentas, sim, nas poucas vezes em que as chuvas mostraram-se generosas.
Por centenas de quilômetros, a viagem revelava-se cansativa. Os negócios que se pretendiam realizar em outras praças resultavam pouco lucrativos. O tempo de percurso entre uma cidade e outra onerava os custos do transporte. O excesso de consumo de combustível, as despesas com refeições e pousada e os gastos com peças de reposição dos veículos inviabilizavam os pequenos empreendimentos.
A economia da região, afetada negativamente por diversos fatores, principalmente pela carência de chuvas, que impediam a terra de produzir convenientemente, não conhecia o setor do “turismo”, hoje uma das principais, senão a principal alavanca do seu desenvolvimento.
A falta de boas estradas pouco estimulava os viajantes. Os raros turistas, à época, foram privados de conhecer as belezas naturais da região, suas praias aconchegantes, a culinária (mesmo a mais exótica) e seu povo espontâneo e hospitaleiro.
Lembro-me da rodovia ligando o alto sertão paraibano ao litoral do estado, asfaltada por um grupamento de engenharia do Exército. Foram 360 quilômetros de excelente trabalho.
A obra exemplar, extensa e durável, levou o sertão à capital e propiciou o progresso, a melhoria de vida do sertanejo, a comodidade do viajante e o surgimento de novas cidades; encurtou as distâncias, apressou o tráfego e integrou as comunidades rurais e citadinas.
Reconheço não ser da competência das forças armadas a construção de estradas, o asfaltamento e a sua conservação, como não seria atribuição sua edificar hospitais, escolas e presídios. Todavia, teríamos, dessa forma, a certificação de boa qualidade das obras, a baixo custo, resistentes ao tempo, sem a interferência maléfica de políticos aproveitadores, de empreiteiros apaniguados, também desonestos, corruptores e influentes no governo.
Ademais, seria a oportunidade de nossos militares aproveitarem melhor a estrutura física e operacional de suas instalações e equipamentos.
Admitindo como positiva a idéia, poderíamos concluir que a sua materialização levaria o país a somar capacidade, qualidade e disciplina; a diminuir custos, corrupção e má gestão da coisa pública; a multiplicar a infra-estrutura nacional e a sua riqueza, para, depois, dividir os benefícios com a população.
De verdade!
Situando-me a partir da segunda metade dos anos sessenta, na região Nordeste, lembro-me de estradas de terra esburacadas, lamacentas, de tráfego difícil e penoso. Lamacentas, sim, nas poucas vezes em que as chuvas mostraram-se generosas.
Por centenas de quilômetros, a viagem revelava-se cansativa. Os negócios que se pretendiam realizar em outras praças resultavam pouco lucrativos. O tempo de percurso entre uma cidade e outra onerava os custos do transporte. O excesso de consumo de combustível, as despesas com refeições e pousada e os gastos com peças de reposição dos veículos inviabilizavam os pequenos empreendimentos.
A economia da região, afetada negativamente por diversos fatores, principalmente pela carência de chuvas, que impediam a terra de produzir convenientemente, não conhecia o setor do “turismo”, hoje uma das principais, senão a principal alavanca do seu desenvolvimento.
A falta de boas estradas pouco estimulava os viajantes. Os raros turistas, à época, foram privados de conhecer as belezas naturais da região, suas praias aconchegantes, a culinária (mesmo a mais exótica) e seu povo espontâneo e hospitaleiro.
Lembro-me da rodovia ligando o alto sertão paraibano ao litoral do estado, asfaltada por um grupamento de engenharia do Exército. Foram 360 quilômetros de excelente trabalho.
A obra exemplar, extensa e durável, levou o sertão à capital e propiciou o progresso, a melhoria de vida do sertanejo, a comodidade do viajante e o surgimento de novas cidades; encurtou as distâncias, apressou o tráfego e integrou as comunidades rurais e citadinas.
Reconheço não ser da competência das forças armadas a construção de estradas, o asfaltamento e a sua conservação, como não seria atribuição sua edificar hospitais, escolas e presídios. Todavia, teríamos, dessa forma, a certificação de boa qualidade das obras, a baixo custo, resistentes ao tempo, sem a interferência maléfica de políticos aproveitadores, de empreiteiros apaniguados, também desonestos, corruptores e influentes no governo.
Ademais, seria a oportunidade de nossos militares aproveitarem melhor a estrutura física e operacional de suas instalações e equipamentos.
Admitindo como positiva a idéia, poderíamos concluir que a sua materialização levaria o país a somar capacidade, qualidade e disciplina; a diminuir custos, corrupção e má gestão da coisa pública; a multiplicar a infra-estrutura nacional e a sua riqueza, para, depois, dividir os benefícios com a população.
De verdade!
sábado, 31 de outubro de 2009
O taxista (conto)
O táxi corria pelo asfalto cheio de buracos e depressões, a uma velocidade de cinqüenta quilômetros por hora. Vicente, o motorista, transitava pelas imediações do aeroporto quando foi abordado por um passageiro:
– Táxi! Táxi!
O veículo parou. Um elegante senhor abriu a porta traseira direita e entrou. Sentado junto à porta, colocou a pasta tipo executivo sobre os joelhos, protegida pelas duas mãos. Olhou para os lados, talvez preocupado com alguma presença indesejável. Então, ordenou ao taxista:
– Rua das Camélias, bairro da Independência, por favor!
– Pois não, senhor! – respondeu Vicente, depois de olhar para trás e verificar se o passageiro estava bem acomodado. Voltou-se para frente e pôs o carro em movimento.
O táxi seguia o percurso indicado. Vez ou outra, o motorista olhava pelo retrovisor e via aquele cavalheiro sentado, com ares de muita apreensão. A cada instante olhava para os lados, consultava o relógio, inquietava-se. As mãos fortes seguravam cuidadosamente a pasta que transportava.
Disposto a iniciar o costumeiro diálogo com os passageiros, às vezes para por fim à monotonia ou simplesmente por curiosidade, Vicente perguntou:
– Vem de São Paulo?
– Sim.
Fez-se um pequeno silêncio, interrompido pela voz do taxista que insistia em dialogar:
– Quer usar o celular? É cortesia da “casa” – disse, ao erguer a mão direita e exibir o telefone enquanto novamente olhava pelo espelho retrovisor. - O senhor parece tenso. Algum problema?
– Não. É que estou ansioso para chegar. Tenho muitas coisas a fazer. À noite, darei uma festa para recepcionar um empresário paulista. Um amigo, com quem mantenho relações comerciais.
Algum tempo depois, o silêncio foi novamente quebrado, dessa vez pelo passageiro que anunciou:
– Finalmente, chegamos! Pode parar. É essa casa da esquina – disse, com o dedo indicador da mão direita apontado para uma belíssima mansão de dois pavimentos. Em seguida, retirou da carteira uma cédula de cinquenta reais, com a qual pagou ao taxista.
Vicente parou o táxi em frente da casa, um palacete construído com esmero, bem ajardinado e alegre. Parecia uma dessas construções caríssimas, exibidas em filmes de luxo.
– Trinta reais! – anunciou o motorista, ao zerar o taxímetro. – Como é mesmo o seu nome, doutor?
– Pereira. José Pereira. – Muito obrigado. Esqueça o troco! – respondeu ao sair.
O passageiro retirou-se rapidamente. Segurava a pasta em baixo do braço esquerdo, apoiada pela mão direita. Renovava, assim, o excesso de cuidado com o objeto que conduzia.
***
À noite, por volta de vinte e uma horas, a festa foi iniciada na casa do doutor Pereira. Havia muita gente; a maioria políticos e empresários. Carros de luxo, homens elegantes e senhoras bonitas davam o tom alegre do ambiente. Doutor Pereira e sua mulher, dona Silene, recebiam os convidados efusivamente.
O banquete começou ao som de muita música. Os cumprimentos entre os convidados, as conversas de “pé-de-orelha” e os beijinhos trocados entre os participantes confirmavam a hipocrisia peculiar aos políticos.
No grande salão, ricamente ornamentado, eram servidos os mais variados drinques: bom uísque e excelentes vinhos. Canapés deliciosamente recheados, caviar, salmão e outras finas iguarias completavam a exuberância do acontecimento.
O grande relógio fixado à parede da sala, onde se viam magníficas obras de Picasso, Van Gogh, Rembrandt e bom número de peças de arte, de autoria de renomados escultores, soou estridentemente.
Eram vinte e três horas.
O jantar seria servido em seguida.
Os convidados conversavam descontraidamente, até serem chamados pela anfitriã para tomarem assento às mesas. Nesse instante, determinado cavalheiro, de nome Enéas Ricaço, passou mal e caiu ao chão, desfalecido. O conteúdo do copo que trazia à mão sujou o rico tapete Persa que ornamentava a sala.
Grande alvoroço tomou conta do recinto.
Alguns médicos acorreram de imediato, na tentativa de assistir à vítima.
– Morto! – revelou o doutor Saudelino, que tomara o pulso do senhor Enéas e consultara-lhe a carótida. – Definitivamente morto! – disse o médico aos circunstantes.
Enéas Ricaço era conhecido empresário de São Paulo; explorava o ramo da construção civil. Viera à cidade participar de negociações com o governo local. Tratava-se de licitação para erguer uma majestosa ponte sobre o Lago Sulino, obra que aproximaria distâncias, valorizaria imóveis da região e traria, sem dúvida, grandes dividendos políticos ao prefeito da cidade.
– O que terá acontecido, meu Deus? – gritou o doutor Pereira, desconsolado.
O morto estava estendido no chão, os olhos abertos, como se estivessem a fitar o teto ricamente iluminado por lustres de cristais importados da Europa.
– Enfarte fulminante? – perguntou outro empresário, sem obter resposta.
– Chamem uma ambulância! – gritou alguém, suspendendo o defunto pelos ombros.
A ambulância chegou e o corpo do doutor Enéas foi removido para um hospital de luxo. Embora morto em circunstâncias desconhecidas, não iria para o IML. Sua mulher não permitiu que o marido fosse aberto como um frango, a exemplo do que acontecera às vítimas do massacre do Carandiru.
O deputado Louis Américo Flary, presente ao acontecimento, sentiu-se constrangido com a citação da senhora; pigarreou por duas vezes e bebeu, de um só gole, todo o conteúdo do copo que trazia à mão.
A polícia foi chamada com certa demora.
O corpo já havia sido removido e pouco restava a fazer. A festa acabou e as especulações recomeçaram.
– Acho que o Ricaço foi envenenado!
– Como assim? Por que você desconfia?
– Não sei. Essas concorrências… muito dinheiro… resultado conhecido por antecipação… – respon-deu, insinuativamente, um dos convidados.
– Quem sabe, um concorrente alijado do processo licitatório? – insistiu outro, sem encontrar apoio aos seus comentários.
– Não gostaria de falar mais sobre o assunto – finalizou certo construtor, disposto a encerrar as especulações.
Às três horas da manhã, depois das diligências policiais de praxe, em que foram interpelados poucas autoridades presentes e todos os serviçais – garçons principalmente –, não restava mais ninguém na casa, exceto os respectivos moradores.
A residência, horas antes alegre e festiva, parecia uma capela fúnebre, com o ambiente pesado, triste, quase escuro, assustador, fantasmagórico.
Os médicos atestaram, posteriormente, que Enéas Ricaço morrera de infarto.
Simples, assim.
***
A licitação para construção da terceira ponte realizou-se no dia seguinte, mesmo sem a presença do doutor Enéas, o que seria impossível. Estava morto. Foi representado por doutor Pereira, executivo maior da empresa.
Divulgado o resultado, veio a confirmação: a Organização Ricaço saíra vencedora. Iria executar a construção pelos setenta milhões de reais orçados, certa de chegar ao dobro ou até mais com os reajustes posteriores. Era o que sempre acontecia nas negociações entre governo e empreiteiras.
Vicente, o taxista, passava em frente ao palácio da prefeitura, onde se realizou a licitação, quando ouviu uma voz.
– Táxi! Táxi!
O motorista parou o veículo. Nele, entrou um senhor de cabelos grisalhos, com uma pasta executiva que fez Vicente lembrar a do dia anterior, conduzida por doutor Pereira. Ao entrar no carro, o passageiro colocou-a no banco traseiro em que se sentara. O gesto brusco fez a maleta abrir-se inesperadamente, revelando o conteúdo de milhares de reais. O passageiro apressou-se em fechá-la, sob o olhar atento do motorista pelo retrovisor.
“Aí tem!” – pensou Vicente, certo de que, brevemente, ouviria falar de mais uma licitação fraudada.
Uma prática sem fim.
– Táxi! Táxi!
O veículo parou. Um elegante senhor abriu a porta traseira direita e entrou. Sentado junto à porta, colocou a pasta tipo executivo sobre os joelhos, protegida pelas duas mãos. Olhou para os lados, talvez preocupado com alguma presença indesejável. Então, ordenou ao taxista:
– Rua das Camélias, bairro da Independência, por favor!
– Pois não, senhor! – respondeu Vicente, depois de olhar para trás e verificar se o passageiro estava bem acomodado. Voltou-se para frente e pôs o carro em movimento.
O táxi seguia o percurso indicado. Vez ou outra, o motorista olhava pelo retrovisor e via aquele cavalheiro sentado, com ares de muita apreensão. A cada instante olhava para os lados, consultava o relógio, inquietava-se. As mãos fortes seguravam cuidadosamente a pasta que transportava.
Disposto a iniciar o costumeiro diálogo com os passageiros, às vezes para por fim à monotonia ou simplesmente por curiosidade, Vicente perguntou:
– Vem de São Paulo?
– Sim.
Fez-se um pequeno silêncio, interrompido pela voz do taxista que insistia em dialogar:
– Quer usar o celular? É cortesia da “casa” – disse, ao erguer a mão direita e exibir o telefone enquanto novamente olhava pelo espelho retrovisor. - O senhor parece tenso. Algum problema?
– Não. É que estou ansioso para chegar. Tenho muitas coisas a fazer. À noite, darei uma festa para recepcionar um empresário paulista. Um amigo, com quem mantenho relações comerciais.
Algum tempo depois, o silêncio foi novamente quebrado, dessa vez pelo passageiro que anunciou:
– Finalmente, chegamos! Pode parar. É essa casa da esquina – disse, com o dedo indicador da mão direita apontado para uma belíssima mansão de dois pavimentos. Em seguida, retirou da carteira uma cédula de cinquenta reais, com a qual pagou ao taxista.
Vicente parou o táxi em frente da casa, um palacete construído com esmero, bem ajardinado e alegre. Parecia uma dessas construções caríssimas, exibidas em filmes de luxo.
– Trinta reais! – anunciou o motorista, ao zerar o taxímetro. – Como é mesmo o seu nome, doutor?
– Pereira. José Pereira. – Muito obrigado. Esqueça o troco! – respondeu ao sair.
O passageiro retirou-se rapidamente. Segurava a pasta em baixo do braço esquerdo, apoiada pela mão direita. Renovava, assim, o excesso de cuidado com o objeto que conduzia.
***
À noite, por volta de vinte e uma horas, a festa foi iniciada na casa do doutor Pereira. Havia muita gente; a maioria políticos e empresários. Carros de luxo, homens elegantes e senhoras bonitas davam o tom alegre do ambiente. Doutor Pereira e sua mulher, dona Silene, recebiam os convidados efusivamente.
O banquete começou ao som de muita música. Os cumprimentos entre os convidados, as conversas de “pé-de-orelha” e os beijinhos trocados entre os participantes confirmavam a hipocrisia peculiar aos políticos.
No grande salão, ricamente ornamentado, eram servidos os mais variados drinques: bom uísque e excelentes vinhos. Canapés deliciosamente recheados, caviar, salmão e outras finas iguarias completavam a exuberância do acontecimento.
O grande relógio fixado à parede da sala, onde se viam magníficas obras de Picasso, Van Gogh, Rembrandt e bom número de peças de arte, de autoria de renomados escultores, soou estridentemente.
Eram vinte e três horas.
O jantar seria servido em seguida.
Os convidados conversavam descontraidamente, até serem chamados pela anfitriã para tomarem assento às mesas. Nesse instante, determinado cavalheiro, de nome Enéas Ricaço, passou mal e caiu ao chão, desfalecido. O conteúdo do copo que trazia à mão sujou o rico tapete Persa que ornamentava a sala.
Grande alvoroço tomou conta do recinto.
Alguns médicos acorreram de imediato, na tentativa de assistir à vítima.
– Morto! – revelou o doutor Saudelino, que tomara o pulso do senhor Enéas e consultara-lhe a carótida. – Definitivamente morto! – disse o médico aos circunstantes.
Enéas Ricaço era conhecido empresário de São Paulo; explorava o ramo da construção civil. Viera à cidade participar de negociações com o governo local. Tratava-se de licitação para erguer uma majestosa ponte sobre o Lago Sulino, obra que aproximaria distâncias, valorizaria imóveis da região e traria, sem dúvida, grandes dividendos políticos ao prefeito da cidade.
– O que terá acontecido, meu Deus? – gritou o doutor Pereira, desconsolado.
O morto estava estendido no chão, os olhos abertos, como se estivessem a fitar o teto ricamente iluminado por lustres de cristais importados da Europa.
– Enfarte fulminante? – perguntou outro empresário, sem obter resposta.
– Chamem uma ambulância! – gritou alguém, suspendendo o defunto pelos ombros.
A ambulância chegou e o corpo do doutor Enéas foi removido para um hospital de luxo. Embora morto em circunstâncias desconhecidas, não iria para o IML. Sua mulher não permitiu que o marido fosse aberto como um frango, a exemplo do que acontecera às vítimas do massacre do Carandiru.
O deputado Louis Américo Flary, presente ao acontecimento, sentiu-se constrangido com a citação da senhora; pigarreou por duas vezes e bebeu, de um só gole, todo o conteúdo do copo que trazia à mão.
A polícia foi chamada com certa demora.
O corpo já havia sido removido e pouco restava a fazer. A festa acabou e as especulações recomeçaram.
– Acho que o Ricaço foi envenenado!
– Como assim? Por que você desconfia?
– Não sei. Essas concorrências… muito dinheiro… resultado conhecido por antecipação… – respon-deu, insinuativamente, um dos convidados.
– Quem sabe, um concorrente alijado do processo licitatório? – insistiu outro, sem encontrar apoio aos seus comentários.
– Não gostaria de falar mais sobre o assunto – finalizou certo construtor, disposto a encerrar as especulações.
Às três horas da manhã, depois das diligências policiais de praxe, em que foram interpelados poucas autoridades presentes e todos os serviçais – garçons principalmente –, não restava mais ninguém na casa, exceto os respectivos moradores.
A residência, horas antes alegre e festiva, parecia uma capela fúnebre, com o ambiente pesado, triste, quase escuro, assustador, fantasmagórico.
Os médicos atestaram, posteriormente, que Enéas Ricaço morrera de infarto.
Simples, assim.
***
A licitação para construção da terceira ponte realizou-se no dia seguinte, mesmo sem a presença do doutor Enéas, o que seria impossível. Estava morto. Foi representado por doutor Pereira, executivo maior da empresa.
Divulgado o resultado, veio a confirmação: a Organização Ricaço saíra vencedora. Iria executar a construção pelos setenta milhões de reais orçados, certa de chegar ao dobro ou até mais com os reajustes posteriores. Era o que sempre acontecia nas negociações entre governo e empreiteiras.
Vicente, o taxista, passava em frente ao palácio da prefeitura, onde se realizou a licitação, quando ouviu uma voz.
– Táxi! Táxi!
O motorista parou o veículo. Nele, entrou um senhor de cabelos grisalhos, com uma pasta executiva que fez Vicente lembrar a do dia anterior, conduzida por doutor Pereira. Ao entrar no carro, o passageiro colocou-a no banco traseiro em que se sentara. O gesto brusco fez a maleta abrir-se inesperadamente, revelando o conteúdo de milhares de reais. O passageiro apressou-se em fechá-la, sob o olhar atento do motorista pelo retrovisor.
“Aí tem!” – pensou Vicente, certo de que, brevemente, ouviria falar de mais uma licitação fraudada.
Uma prática sem fim.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Revivendo o passado (crônica)
Segundo a família, fui um garoto esperto, estudioso, inteligente e observador. Verdade? Não sei. Como afirmar se os parentes não exageraram em suas observações? Particularmente, já enalteci a qualidade dos filhos, superestimei-lhes os feitos e minimizei-lhes os erros.
Os netos?
Como são inteligentes!
Fui o segundo colocado no Exame de Admissão ao Ginásio, espécie de vestibular da época. O exame foi realizado no Colégio Salesiano Padre Rolim, na cidade de Cajazeiras, educandário que contou em seu corpo discente personalidades como o padre Cícero Romão Batista – “meu padim Pade Ciço” – e o primeiro cardeal da Igreja Católica no estado da Paraíba, Dom Arcoverde.
Sempre gostei de ler. Depois do trabalho e das horas ocupadas na escola, lia bons livros da literatura doméstica. Conheci obras de José de Alencar, Machado de Assis, Jorge Amado e José Lins do Rego, este, um conterrâneo de quem me orgulho, como o faço, por justiça e reconhecimento, referindo-me a outro ilustre patrício, José Américo de Almeida, renomado escritor de sua época.
Encarei o futuro com olhos progressistas.
Aos treze anos, trabalhava para ajudar a família necessitada, o que me serviu para aperfeiçoar as aptidões latentes. Meu primeiro emprego foi em loja especializada em peças e acessórios para automóveis. Pertencia a um tio, de saudosa memória, um dos poucos da família que se projetou no cenário empresarial do nosso estado, a Paraíba. Os demais parentes de quem herdei o bom caráter, a disciplina e a vontade para o trabalho eram pobres, porém honrados.
Não passei muito tempo atrás do balcão.
Logo me senti cansado de entregar mercadorias transportadas na cabeça. Recebia pelo serviço uns poucos trocados, com os quais tomava minha gelada de coco com pão doce, após disputá-lo com as moscas que infestavam o fiteiro do Galego, comerciante de parcos recursos e de obstinada disposição para o trabalho, mas que não logrou êxito financeiro na vida.
Jamais vi a luta do Galego como desestímulo. “Se ele não venceu os obstáculos, eu os venceria”, pensava, nos arroubos da juventude. Era pobre tanto quanto ele, mas me dispus a trilhar caminhos mais ousados.
Larguei a atividade de entregador de mercadorias e fui trabalhar em um escritório. Passei a ser Office boy. Nome pomposo: Office boy!
Já adolescente, entre os quinze e os dezesseis anos, vaidoso, camisa de mangas dobradas para ressaltar os músculos (e que músculos!), cabelos lustrosos à custa de muita brilhantina, não mais temia ser visto por algum colega de escola, carregando caixa na cabeça. Se me vissem, ver-me-iam vestido mais apuradamente, portando alguns envelopes com destino à agência dos Correios.
A quem me perguntasse onde trabalhava, enchia o peito de orgulho e dizia: “trabalho na Mesbla, empresa estabelecida em Recife, na Rua da Palma, e no Rio de Janeiro, na Rua do Passeio, entre outras importantes cidades do Brasil. Uma multinacional, originalmente pertencente aos franceses Mestre & Blagè, até tornar-se Mesbla em sua versão brasileira”.
Falava assim, com entusiasmo, sem arrogância, mas feliz com a minha ascensão funcional.
Em meu novo trabalho, após varrer o pequeno escritório de vendas, arrumava as mesas e atualizava as listas de preços; depois, sentava-me à máquina de escrever e iniciava o meu treinamento.
Não aspirava ser um “dedógrafo” qualquer. Queria ser datilógrafo, bater as teclas com os dez dedos, conforme desenho de uma mão em que foram grafadas as letras que cada dedo deveria pressionar. Tudo certinho.
Com o passar do tempo, tornei-me excelente datilógrafo. Assim, deixei de ser Office boy. Ambicioso, no bom sentido, desejava mais. Gostaria de ser como o colega Luiz, encarregado da correspondência oficial da empresa. Era ele que escrevia as cartas endereçadas à filial de Recife e eu as datilografava.
Também almejava ser igualzinho ao meu chefe Eládio, que costumava trajar ternos de linho diagonal L-120. Eu iria vencer! Um dia, vestiria ternos iguais àqueles. O cérebro gravava essas mensagens, enquanto os dedos batiam impiedosamente na velha máquina Underood, cada vez mais velozes.
Depois de estudar gramática portuguesa e de ler cartas em estilo comercial, em um livro que me custou dias do salário, senti-me feliz ao redigir e datilografar a missiva que solicitava da filial a minha promoção a “datilógrafo-correspondente”.
Naquele momento, dava meu segundo passo rumo a uma posição mais destacada. Tornara-me igual ao Luiz, que deixara a empresa para assumir um cargo no Banco do Brasil. Tempos depois, eu faria o mesmo.
Entregador de pacotes.
Office boy.
Datilógrafo.
Datilógrafo-correspondente.
Depois, chefe.
Tornei-me chefe. Como? Troquei os pacotes pela vassoura e esta pela máquina de escrever e pela redação da correspondência oficial da empresa. Substituído por outro jovem, que passou a ser o novo boy, tornei-me seu chefe, já que passei a ser o terceiro na hierarquia funcional, constituída de quatro pessoas. Ele era o funcionário mais novo; o último, inclusive na escala salarial. Ainda hoje, quando me vê, diz para os nossos circunstantes: “Este já foi meu chefe”, e conta-lhes a história da minha progressão funcional.
Aquele ex-colega começou varrendo o chão; anos depois, trocou a vassoura por uma caneta com a qual assinaria importantes documentos como representante de um dos Poderes de nossa Nação.
Esse meu “ex-subordinado” exerceu o cargo de procurador da República, em Brasília. É um homem de grande saber jurídico, vitorioso após a infância órfã e pobre como a minha, vivida na cidade onde estudamos no mesmo colégio.
Ele, de quem não citarei o nome sem sua permissão, também não fez como o Galego, que continuou vendendo sua gelada de coco.
Assim, como funcionário de Mesbla desde os quatorze anos, fui dispensado aos dezessete, quase próximo a completar dezoito. Deixei o emprego para iniciar nova etapa de minha vida. Por ser bom datilógrafo, reconhecido em um mercado de poucos concorrentes, fui convidado para trabalhar no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS, na cidade de Orós, estado do Ceará.
Ali estava sendo reiniciada a construção de uma monumental obra hidrográfica, colossal monumento que viria armazenar, três anos mais tarde, dois bilhões de metros cúbicos de água. Seria a redenção do Nordeste, nas palavras de políticos capitaneados por Juscelino Kubitschek, continuador da obra iniciada no governo de Epitácio Pessoa.
O desafio de barrar o maior “rio seco” do mundo, o Jaguaribe, também me contagiou. Contratado co-mo datilógrafo, após ter sido autorizado por minha mãe, que me nomeara um tutor com mandato a ser exercido em plagas cearenses, voltei a usar a máquina de escrever como ferramenta de trabalho, atividade praticada durante dez horas diárias, por mais de três anos.
O Clidenor, que me fizera o convite para trabalhar no DNOCS, um garoto como eu, que ansiava por melhores condições financeiras, fazia dupla comigo nas Olivettis que por pouco resistiram aos nossos dedos ágeis e certeiros, pressionando suas teclas de onde saíram, mensalmente, as folhas de pagamento de mais de dois mil operários.
Em Orós, como empregado do DNOCS, não tive nenhuma ascensão funcional; apenas as finanças melhoraram, graças ao salário bastante generoso e à carga de trabalho excessivamente pesada.
Naquela repartição, iniciei e terminei minha carreira como datilógrafo, experiência que contribuiu para aprovação em concurso do Banco do Brasil, quando bati o texto uma vez e meia durante o tempo concedido para testar essa habilidade.
Cheguei aonde chegou o Luiz, meu antigo colega da Mesbla. Trabalhei nessa instituição por onze anos, antes de trocá-la pela atividade privada, como profissional na área de contabilidade.
Formado em ciências contábeis, deixei o Banco do Brasil para ser auditor independente. E o fui por muito tempo, inclusive quando exercia a profissão paralelamente como auditor concursado de empresa pública federal, até à aposentadoria hoje desfrutada com certo conforto.
O tempo passou, como não poderia ser diferente. O menino pobre, órfão de pai aos seis anos de idade, que entregou pacotes transportados na cabeça; que varreu o chão e transmitiu recados; que usou a máquina de escrever como poucos o fizeram; que deixou de ser Barnabé e funcionário do Banco do Brasil; que foi auditor independente e de empresa pública, agora está aposentado e em condições de dizer, como o fez Napoleão Bonaparte, do alto de uma Pirâmide, no Egito, parodiando Júlio César: “fui, vi e venci”.
Entregador de pacotes.
Office boy.
Datilógrafo.
Datilógrafo-correspondente.
Barnabé.
Funcionário do Banco do Brasil.
Auditor independente.
Auditor de empresa pública federal.
Aposentado.
E agora?
Resta-me aguardar a morte chegar!
Enquanto ela não vem, dedico-me à literatura; leio e escrevo, talvez para confirmar que a vida é uma eterna mutação.
O mundo dá muitas voltas, já disse alguém de experimentado saber.
Há sempre o retorno ao ponto de partida.
Não é assim, quando envelhecemos e voltamos a praticar atitudes senis, assemelhadas às de uma criança? Pois bem, termino exatamente como comecei: escrevendo. Apenas troquei de teclado – o da máquina de escrever pelo do computador.
A vida é assim.
Os netos?
Como são inteligentes!
Fui o segundo colocado no Exame de Admissão ao Ginásio, espécie de vestibular da época. O exame foi realizado no Colégio Salesiano Padre Rolim, na cidade de Cajazeiras, educandário que contou em seu corpo discente personalidades como o padre Cícero Romão Batista – “meu padim Pade Ciço” – e o primeiro cardeal da Igreja Católica no estado da Paraíba, Dom Arcoverde.
Sempre gostei de ler. Depois do trabalho e das horas ocupadas na escola, lia bons livros da literatura doméstica. Conheci obras de José de Alencar, Machado de Assis, Jorge Amado e José Lins do Rego, este, um conterrâneo de quem me orgulho, como o faço, por justiça e reconhecimento, referindo-me a outro ilustre patrício, José Américo de Almeida, renomado escritor de sua época.
Encarei o futuro com olhos progressistas.
Aos treze anos, trabalhava para ajudar a família necessitada, o que me serviu para aperfeiçoar as aptidões latentes. Meu primeiro emprego foi em loja especializada em peças e acessórios para automóveis. Pertencia a um tio, de saudosa memória, um dos poucos da família que se projetou no cenário empresarial do nosso estado, a Paraíba. Os demais parentes de quem herdei o bom caráter, a disciplina e a vontade para o trabalho eram pobres, porém honrados.
Não passei muito tempo atrás do balcão.
Logo me senti cansado de entregar mercadorias transportadas na cabeça. Recebia pelo serviço uns poucos trocados, com os quais tomava minha gelada de coco com pão doce, após disputá-lo com as moscas que infestavam o fiteiro do Galego, comerciante de parcos recursos e de obstinada disposição para o trabalho, mas que não logrou êxito financeiro na vida.
Jamais vi a luta do Galego como desestímulo. “Se ele não venceu os obstáculos, eu os venceria”, pensava, nos arroubos da juventude. Era pobre tanto quanto ele, mas me dispus a trilhar caminhos mais ousados.
Larguei a atividade de entregador de mercadorias e fui trabalhar em um escritório. Passei a ser Office boy. Nome pomposo: Office boy!
Já adolescente, entre os quinze e os dezesseis anos, vaidoso, camisa de mangas dobradas para ressaltar os músculos (e que músculos!), cabelos lustrosos à custa de muita brilhantina, não mais temia ser visto por algum colega de escola, carregando caixa na cabeça. Se me vissem, ver-me-iam vestido mais apuradamente, portando alguns envelopes com destino à agência dos Correios.
A quem me perguntasse onde trabalhava, enchia o peito de orgulho e dizia: “trabalho na Mesbla, empresa estabelecida em Recife, na Rua da Palma, e no Rio de Janeiro, na Rua do Passeio, entre outras importantes cidades do Brasil. Uma multinacional, originalmente pertencente aos franceses Mestre & Blagè, até tornar-se Mesbla em sua versão brasileira”.
Falava assim, com entusiasmo, sem arrogância, mas feliz com a minha ascensão funcional.
Em meu novo trabalho, após varrer o pequeno escritório de vendas, arrumava as mesas e atualizava as listas de preços; depois, sentava-me à máquina de escrever e iniciava o meu treinamento.
Não aspirava ser um “dedógrafo” qualquer. Queria ser datilógrafo, bater as teclas com os dez dedos, conforme desenho de uma mão em que foram grafadas as letras que cada dedo deveria pressionar. Tudo certinho.
Com o passar do tempo, tornei-me excelente datilógrafo. Assim, deixei de ser Office boy. Ambicioso, no bom sentido, desejava mais. Gostaria de ser como o colega Luiz, encarregado da correspondência oficial da empresa. Era ele que escrevia as cartas endereçadas à filial de Recife e eu as datilografava.
Também almejava ser igualzinho ao meu chefe Eládio, que costumava trajar ternos de linho diagonal L-120. Eu iria vencer! Um dia, vestiria ternos iguais àqueles. O cérebro gravava essas mensagens, enquanto os dedos batiam impiedosamente na velha máquina Underood, cada vez mais velozes.
Depois de estudar gramática portuguesa e de ler cartas em estilo comercial, em um livro que me custou dias do salário, senti-me feliz ao redigir e datilografar a missiva que solicitava da filial a minha promoção a “datilógrafo-correspondente”.
Naquele momento, dava meu segundo passo rumo a uma posição mais destacada. Tornara-me igual ao Luiz, que deixara a empresa para assumir um cargo no Banco do Brasil. Tempos depois, eu faria o mesmo.
Entregador de pacotes.
Office boy.
Datilógrafo.
Datilógrafo-correspondente.
Depois, chefe.
Tornei-me chefe. Como? Troquei os pacotes pela vassoura e esta pela máquina de escrever e pela redação da correspondência oficial da empresa. Substituído por outro jovem, que passou a ser o novo boy, tornei-me seu chefe, já que passei a ser o terceiro na hierarquia funcional, constituída de quatro pessoas. Ele era o funcionário mais novo; o último, inclusive na escala salarial. Ainda hoje, quando me vê, diz para os nossos circunstantes: “Este já foi meu chefe”, e conta-lhes a história da minha progressão funcional.
Aquele ex-colega começou varrendo o chão; anos depois, trocou a vassoura por uma caneta com a qual assinaria importantes documentos como representante de um dos Poderes de nossa Nação.
Esse meu “ex-subordinado” exerceu o cargo de procurador da República, em Brasília. É um homem de grande saber jurídico, vitorioso após a infância órfã e pobre como a minha, vivida na cidade onde estudamos no mesmo colégio.
Ele, de quem não citarei o nome sem sua permissão, também não fez como o Galego, que continuou vendendo sua gelada de coco.
Assim, como funcionário de Mesbla desde os quatorze anos, fui dispensado aos dezessete, quase próximo a completar dezoito. Deixei o emprego para iniciar nova etapa de minha vida. Por ser bom datilógrafo, reconhecido em um mercado de poucos concorrentes, fui convidado para trabalhar no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS, na cidade de Orós, estado do Ceará.
Ali estava sendo reiniciada a construção de uma monumental obra hidrográfica, colossal monumento que viria armazenar, três anos mais tarde, dois bilhões de metros cúbicos de água. Seria a redenção do Nordeste, nas palavras de políticos capitaneados por Juscelino Kubitschek, continuador da obra iniciada no governo de Epitácio Pessoa.
O desafio de barrar o maior “rio seco” do mundo, o Jaguaribe, também me contagiou. Contratado co-mo datilógrafo, após ter sido autorizado por minha mãe, que me nomeara um tutor com mandato a ser exercido em plagas cearenses, voltei a usar a máquina de escrever como ferramenta de trabalho, atividade praticada durante dez horas diárias, por mais de três anos.
O Clidenor, que me fizera o convite para trabalhar no DNOCS, um garoto como eu, que ansiava por melhores condições financeiras, fazia dupla comigo nas Olivettis que por pouco resistiram aos nossos dedos ágeis e certeiros, pressionando suas teclas de onde saíram, mensalmente, as folhas de pagamento de mais de dois mil operários.
Em Orós, como empregado do DNOCS, não tive nenhuma ascensão funcional; apenas as finanças melhoraram, graças ao salário bastante generoso e à carga de trabalho excessivamente pesada.
Naquela repartição, iniciei e terminei minha carreira como datilógrafo, experiência que contribuiu para aprovação em concurso do Banco do Brasil, quando bati o texto uma vez e meia durante o tempo concedido para testar essa habilidade.
Cheguei aonde chegou o Luiz, meu antigo colega da Mesbla. Trabalhei nessa instituição por onze anos, antes de trocá-la pela atividade privada, como profissional na área de contabilidade.
Formado em ciências contábeis, deixei o Banco do Brasil para ser auditor independente. E o fui por muito tempo, inclusive quando exercia a profissão paralelamente como auditor concursado de empresa pública federal, até à aposentadoria hoje desfrutada com certo conforto.
O tempo passou, como não poderia ser diferente. O menino pobre, órfão de pai aos seis anos de idade, que entregou pacotes transportados na cabeça; que varreu o chão e transmitiu recados; que usou a máquina de escrever como poucos o fizeram; que deixou de ser Barnabé e funcionário do Banco do Brasil; que foi auditor independente e de empresa pública, agora está aposentado e em condições de dizer, como o fez Napoleão Bonaparte, do alto de uma Pirâmide, no Egito, parodiando Júlio César: “fui, vi e venci”.
Entregador de pacotes.
Office boy.
Datilógrafo.
Datilógrafo-correspondente.
Barnabé.
Funcionário do Banco do Brasil.
Auditor independente.
Auditor de empresa pública federal.
Aposentado.
E agora?
Resta-me aguardar a morte chegar!
Enquanto ela não vem, dedico-me à literatura; leio e escrevo, talvez para confirmar que a vida é uma eterna mutação.
O mundo dá muitas voltas, já disse alguém de experimentado saber.
Há sempre o retorno ao ponto de partida.
Não é assim, quando envelhecemos e voltamos a praticar atitudes senis, assemelhadas às de uma criança? Pois bem, termino exatamente como comecei: escrevendo. Apenas troquei de teclado – o da máquina de escrever pelo do computador.
A vida é assim.
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